sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Saudade tem jeito. Jeito pra cerzir os remendos que o tempo deixou, colar cacos que a vida quebrou, curar cicatrizes que a dor causou.




Saudade n é dor. Saudade é amor. Na verdade, vários amores guardados na estante das lembranças, cheios de pó, mas com histórias surpreendentes a quem quiser ouvir. A saudade é o melhor exercício para a mente n atrofiar. Lembrar dos bons momentos, nos estimula a ir atrás de mais e mais para termos e sermos histórias aos nossos. E assim como nas histórias, nos tornarmos eternos.

Não existe um exato pq da saudade. Mas sei q ela n é um bicho de sete cabeças e nem o bicho papão. Quem a tem no peito, tem felicidade constante, embora nem sempre o riso saia, mas a alma é forrada de boas lembranças q só se constrói com saudade.
Melancolia? Certo dia em uma conversa com uma amiga, constatamos as duas q melancolia é triste e deveria ter outro nome. Há q se rebatizar a melancolia, pois ela carrega consigo a saudade. Melancolia deveria ser sinônimo de alegria, felicidade, risos. “Tá melancólico? Ah q maravilha! Isso é tão bom... hj eu to num estado melancólico, dando bjs e abraços em todos...” Melancolia deveria ser consumida em doses diárias no lugar de anti depressivos. Sem excesso é claro, pq tudo q é demais, é demais mesmo.

Saudade tem jeito. Jeito pra cerzir os remendos q o tempo deixou, colar  cacos  q a vida quebrou, curar cicatrizes q a dor causou. 

Era uma vez...


Saudade é cheiro. Tenho comigo o cheiro da saudade. Dona Joana, uma senhora baixinha, de pele clara, chinelos de dedos, vestido estampado e casaquinho pro frio, quando fazia, dizia ela, com sotaque castelhano, por onde ia  deixava o rastro de Alma de Flores. Do quarto feito pra boneca, ao banheiro onde mais parecia um salão de festa pelo tamanho.  Ao fim da tarde a casa tinha outro cheiro: leite quente batido com nescafé e mostarda nas gajetas uruguaias q ela nos preparava com todo o seu amor. Dona Joana Tappes, uma avó de 16 netos, que tanto perfumou as  melhores lembranças da minha infância e meu guarda roupas (tenho alma de flores sim!) me deu em 19 anos as mais doces referências que um neto pode carregar em vida. Herança sentida na pele.

Saudade é som. E vários. Muitos ocupam mha mente.  Ouço ainda vivo na minha memória Rod Stewart cantar  Sailing toda vez que eu me pegava pensando em voltar pro Sul.  Isso na década de 80, uma música q embalou bailinhos, embalava mha saudade do sul. I am sailing, I am sailing home again across the sea...”

Não há como falar de saudade sem pensar numa música q nos acariciou a alma. Seria injusto citar 1, 2, 3...por isso faço desse blog gdes momentos de alegria da mha vida. Mesmo os mais tristes, pq  hj são superados.

Saudade é doce. Numa noite fria e chuvosa de Porto Alegre em julho de 90,  um amigo me preparou sua espetaculosa “massa” como chamam os gaúchos. Entre risos e vinho, rock e prosa há uma confusão enorme entre sal e açúcar,  fazendo do jantar simples uma diversão única e fabulosa. Mais doce que sua própria  massa, meu doce amigo compensa o jantar cantando pra mim Led Zeppelin Stairway to Heaven ao som de um violão.
Sabor jamais esquecido. Um gosto q só eu senti.

Saudade é toque. Uma cama de solteiro, um cobertor verde e quente, o frio entrando pelas frestas, tudo dividido, Xanadu tocando a milhão no rádio, a luz do rádio iluminando aquela noite e , mais alto q a música q se ouvia, era o som da respiração no ouvido. O toque dos dedos  pelo rosto, boca, se aventurando pelo corpo sobre a roupa, costas, cintura, tudo em silencio, em segredo. Não havia roupas pelo chão, nem botões de blusas sendo abertos, não havia marca de  batom pelo corpo, boca, mas tinha mto respeito, mto carinho e um amor sincero e gritante no peito. O amor sim estava descoberto, estava nu e fora feito em pensamentos. Esses jamais esquecidos e nem divididos. Esses jamais vividos outra vez. Foi a única vez. Foi a primeira vez.

Saudade é vida. A vida é mto engraçada, dá voltas... hj me pego sentindo falta de SP, da garoa no meio da tarde em pleno verão, do cheiro de borracha queimada do Cambuci, o bairro q morei por mais de 20 anos na década de 80, a velha escola AIA (Adelina Issa Ashcar com Dona Lúcia na direção),  as colegas amigas e unidas para sempre enquanto durar a adolescência: Helô, Samy, Rosana, Maria Pia, Rebeca, bjs em todas vocês,  o calor do trânsito sufocante e louco em plena hora do Rush em plena Av Paulista, a coxinha da coxa com creme do Rosima, tem até site: a casa ainda existe na Brig Luis Antonio e tem filial na Pamplona, confiram por favor... uma casa árabe q faz as melhores esfihas de dar inveja aos seus criadores, o por do sol na praça Charles Miller, dos tombos de patins na Aclimação e nas pedaladas no Ibirapuera. Cursinho Objetivo de sexta feira era ministrado pelo saudoso FT (Fernando Teixeira) mestre em Literatura, bom humor e carisma, ali na Prainha entre “ chopps e pastel” absorvíamos tudo q vinha do mestre....saudade.

E por falar em pastel..pastel de feira! Você pode comer pastel mundo a fora, mas o pastel de feira de São Paulo realmente não tem igual. Garanto. Aquela casquinha crocante, o temperinho verde na carne, o molho de cebola e tomate..hummm q água na boca me dá. Cê nem liga se ficar um verdinho no dente, o q importa é q seu pastel está pronto.

Rua do Oriente, 25 de Março, o q é aquilo? Mais de 2 milhões de pessoas circulando ao meio dia em plena época de Natal. O vendedor de milho, abacaxi e Yakissoba. Todos ali desviando do trânsito humano, ganhando seus trocados, pessoas deixando suas economias, mas não esquecendo nem a filha do zelador na listinha de presentes. Todos satisfeitos no centro,  na “cidade” como chamam os, soteropolitanos, cariocas, gaúchos, mineiros, japoneses, chineses, árabes, judeus, americanos, europeus, mas no fundo e de coração, todos paulistas. Pq paulista “meismo” só o sanduiche de "mortandela" (assim que paulista fala!)  no Mercado Público e um café pingado servido num copinho de pinga. Pão na chapa, ovo cozido, almôndega no molho, salsicha enrolada. Só não se alimenta num boteco quem n quer...

Noite. O ar de festa em pleno inverno. As danceterias extintas mas vivas nas memórias alheias, (sei q não só as mhas) nos convidavam a relaxar, aproveitar a vida. UP Down,  Toco, Over Night e por aí a fora. Don't You Forget About Me, Shout, Harry Houdini , sons q me vem a mente...Tão bela época como qualquer época q tatua na memória os passinhos de dança. Fila no banheiro, chapelaria era "up" e o Martini com cereja. Pista lotada, palco forrado de dançarinos, telão pra acompanhar os vídeos. Fim de festa, pai na porta da danceteria e o corpo passava a semana toda com a sensação dos embalos q iriam continuar no sábado a noite.

Imigrantes (ah...foi Maluf q fez!!! Só para constar aqui) lotada as 6 da tarde. Não precisa ser feriado, precisa apenas de uns pilinhas pra vc pegar o “buzão” e descer pra Santos. Em 1 hora vc encontra a melhor praia de SP (nasci lá, sei o q falo). O bafo sentido no calçadão, o sorvete de doce de leite da Independência, a caipirinha do Margarida na praia, a casquinha de siri e o empadão de frango servido junto com MPB nos barzinhos e o mar morno a noite. As ondas fazendo espuma nos pés, a água q molha metade da saia, as horas passando e vc nem sentindo, os parceiros de caminhada, as famílias, as bicicletas, o trânsito apertado,  mas vc nem liga, é fim de semana. É praia de paulista...

São Paulo é assunto q dure ... e saudade dela em mim também. Nem falei do meu timão...da Duncan, do Bexiga, de Adorinan Barbosa, Vicente Matheus...Do Clayton Baroboskin (temos histórias amigo, n caberia em uma noite conta-las)

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa


Vamos conjugar o verbo saudade.

Eu pensei que pudesse esquecer certos velhos costumes

Tu muito além longe daqui

Ele zomba do quanto eu chorei porque sabe passar e eu não sei

Nós somos feitos um pro outro pode crer

Vós, que sofreis, porque amais, amai ainda mais. Morrer de amor é viver dele.

Eles estão surdos.

 Alessandra.