quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Desapego





Desapego.

Acho que é esse o significado de mais um ano na vida da gente.

Mais do que fazer uma retrospectiva do ano que passou, fazer o balanço anual das contas, lançar os lucros e perdas, devemos (antes de seguir em frente) olhar atentamente para o que ficou atrás. Fazer uma análise bem detalhada do que passou. 

Olhar todos os poros, todos os pontos, todos os planos. Reler cartas antigas, ver velhas fotos. Rir da calça boca de sino, ficar surpresa com as meias soquetes conservada como se fossem peças de museus, guardadas pra primeira filha que nascesse... Escutar o primeiro Vinil de Led Zeppelin com algumas faixas arranhadas. 

Sentir o gosto de café passado pela mãe... Saudosismo sempre presente em qualquer momento passado nosso.

Sinto na pele que pior que contratar uma boa secretária do lar, é fazer a faxina pessoal e descartar numa boa da velha coleção de chaveiros conquistada com muito esmero. Como fazer? E, a pior pergunta: porque fazer? Será que vai dar mais espaço no roupeiro? Ou descartar vai fazer com que o dia termine bem? Não tenho dúvidas alguma que desapegar no primeiro instante dói sim e muito. Mas dizem por aí que é necessário.

Precisamos de alguns passos para exercitar o desapego. O primeiro passo é CORAGEM. Ter coragem para encarar todas as sombras do passado, abrir um livro e sentir a brisa do mar sem se emocionar, os sons do passado ecoando em todos os cantos da casa, não é nada mole não! Imagina se deparar com a carteirinha de vacinação do filho que já lhe deu netos nos dias de hoje, é emoção ao cubo... Nitroglicerina pura caindo em forma de lágrimas pela face.

“Coragem, às vezes é desapego. É parar de se esticar em vão, para trazer a linha de volta. É aceitar doer inteiro até florir de novo. Já ouviram isso antes, tenho certeza que sim. E Caio Fernando Abreu não estava errado quando conseguiu descrever realmente o que é o desapego. Essa luta interior constante de se livrar do que passou, do que magoou e também do que um dia foi bom, mas hoje não serve mais, exige muita coragem mesmo.

O segundo passo é a EMOÇÃO. Não existe possibilidade alguma de desapegar sem se emocionar. A emoção talvez seja a ponte que liga o coração e a razão. Vamos do choro ao grito aqui. Para se livrar vale tudo, até xingar em japonês!

Crie seu próprio closet, abra suas portas, liberte suas asas sem se preocupar com o que vão pensar, é o terceiro e não menos importante passo: AMOR PRÓPRIO.

Arriscar mesmo sabe como é? Simplesmente faça a sua vontade prevalecer e que se dane o resto. Parece grosseiro, mas não é! A educação nos diz até como sentar na beira do sofá na casa vizinha, mas porque simplesmente não ficar na porta? Porque não podemos  fazer um café instantâneo ao invés de passar um café fresco e desperdiçar tempo, pó, água, gás? Claro que tudo isso com um belo sorriso no rosto (ou não...)

Que 2015 seja tão importante como foi 1985. Que seja tão surpreendente como foi no ano do ingresso na faculdade. Não melhor que a alegria do ano em que a família se oficializou, o filho nasceu, o cometa Halley cruzou nossos céus. Olhar para o que ficou também é a forma de se desejar que muitas felicidades se repitam. Que sintamos o gosto da gelatina colorida da tia, a lentilha da mãe e a energia da casa cheia de parentes.

Feliz desapego!
Feliz passado sempre presente!!
Feliz futuro tão próximo!!!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

DPAC- Vivendo na Torre de Babel*




DPAC- Vivendo na Torre de Babel*

As vésperas de meu filho completar 14 anos ele foi diagnosticado com DPAC. 


O que todos achavam que era excesso de zelo, mimo da minha parte e desatenção e preguiça da parte dele, ganhou esse nome aí: DPAC. 

Mas vamos por partes. O que é isso aí? DPAC significa Desordem no Processamento Auditivo Central. O portador desta disfunção ouve perfeitamente, mas seu cérebro não processa o que ouve. Fica tudo bagunçado na sua mente. Tudo confuso, sem começo, meio e, logicamente, sem fim algum. 


É considerada uma neuropatia auditiva.  Uma falha no sistema auditivo central. Ainda não se conhece a causa concreta para o surgimento do DPAC, mas entre as mais cogitadas estão: permanência em UTI-Neonatal por tempo superior a 48 horas; fatores genéticos; otites nos três primeiros meses de vida; experiências auditivas insuficientes durante a primeira infância além de processos alérgicos, rinite, e sinusite. 


João nasceu com 8 meses de gestação, teve parada respiratória, ficou 8 dias na UTI, depois mais 8 na CTI e tem uma alergia crônica tratada com antialérgicos de uso contínuo e injeção semanal para controle da rinoconjuntivite crônica que tem. Dentre as prováveis causas relacionadas, ele apresenta 3, o que aliado aos sintomas e seu histórico médico, confirmam o diagnóstico. 


A DPAC está no “mercado” há 15 anos, quase a idade de João. Mãe de primeira e única viagem, eu sentia que algo estava errado com ele, mas por ser filho único, neto único, sobrinho único, deixei por conta dos mimos, como diziam todos. Mesmo assim, vez por outra, eu consultava alguns médicos a respeito da dificuldade que ele apresentava. A resposta era sempre a mesma: o menino é superprotegido e deve melhorar com o tempo.


João não entende piadas, frases com duplo sentido e expressões cotidianas. Mas quando descobre o sentido da piada, ele por sua vez aluga o assunto até gastar! Piadas acabam ficando sem graça de tanto que ele as usa, mas para não desestimulá-lo a interpretar sozinho, rimos como se fosse a primeira vez. Claro que lá pela 99º vez falamos com todo amor e carinho que já ouvimos...


Outro aspecto sintomático que ele apresenta: imita o que lhe parece engraçado. Vive situações que outras pessoas viveram e percebe que chamou atenção. Exemplo: se um colega tropeça e desperta gargalhadas, ele vai tropeçar (de propósito) e rir mais do que a plateia. Além disso, vai relatar várias vezes que tropeçou e todo mundo riu. Novamente entramos com os comentários delicados para não frustrar.


Por tudo estar bagunçado em sua cabeça, João tem uma dificuldade enorme em interpretar o que é pedido. Imaginem seguir um comando sem ao menos entender o sentido dele.  Agora imaginem seguir vários. A confusão surge instantaneamente na vida dele.


No começo eu achava que ele se “fazia” desentendido, ficava com a carinha de paisagem e com um ponto gigantesco de interrogação gravado na testa, tomando conta da sua fisionomia. Mas com o tempo vi que essa expressão era contínua. Suas dúvidas eram as mesmas no dia seguinte e em horas depois. Descobri que meus comandos e esclarecimentos tinham que ser o Pai Nosso de todo o dia, isto é, todos os dias repetir as mesmas coisas, sem tirar nem por cada informação. 


Mexer na geladeira por iniciativa própria sem ordem de terceiros (e olha que me incluo nisso) nem pensar! Combinar roupa, querer ir ao shopping sozinho ou com seus amigos como passeio casual, não passa pelos seus pensamentos. Tomar decisões? Não sabe ainda o que é isso. Agora, imaginem minha preocupação, pois está indo para ensino médio, prestes a completar 15 anos, mas com mente de 10.  Não confundir com retardo mental, pois não apresenta prejuízo intelectual. 


Aceita comandos sem se rebelar. Viaja sozinho de avião desde seus 12 anos, embora cheio de ordens e recomendações repetidas diversas vezes antes de embarcar. De uma pureza única, não vê perigo em nada e acha tudo de bom tamanho. Tudo é confiável, todos são confiáveis. Se tiver pizza no lanche, ele fica muito feliz, mas se for pão com manteiga, ele se conforma e não reclama, mantendo a mesma expressão. 


Uma de suas maiores aliada é a boa e velha rotina. Todos os dias repetir as mesmas atividades ajuda a exercitar a mente. Ter hora pra tudo e explicações detalhadas, facilita seu desempenho. Frases longas ou moscas voando em sua frente fazem com que ele perca o rumo no meio do nada. Enfim, tirar da rotina, é voltar à estaca zero do tratamento contínuo, uma vez que DPAC não em cura, sendo apenas possível ensinar o cérebro a responder a novos estímulos. 


A recuperação acontece graças à neuroplasticidade – capacidade para se moldar a uma nova realidade. “É fundamental que o tratamento seja interdisciplinar, com a atuação de otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos, neuropediatras, psicopedagogos e neuropsicólogos. A reabilitação proporciona melhora na qualidade de vida e um cotidiano normal para os estudantes”, evidencia  Dra Rita de Cássia Cassou Guimarães, mestre em clínica cirúrgica pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).


Seu rendimento escolar é de médio a ruim.  São poucas as matérias em que consegue alcançar boa nota e mantê-la. Repetiu o segundo ano primário, e, a alegação da professora na época, não foi por nota, mas por ser uma criança apática, que não brincava com as outras, não tomava iniciativa na classe, não participava de atividades em grupo. Coincidentemente esta foi à fase em que eu e o pai dele nos separamos o que justificou pela pediatra e familiares seu comportamento e “baixo rendimento escolar”.


Atualmente faz acompanhamento com neurologista, clínica geral, fonoaudióloga. Depois das férias, começará com o tratamento com psicóloga. A escola também tem que estar informada sobre o assunto, pois seu mundo diferente não é visto a olho nu. Na escola dele, tive dificuldade em obter ajuda, pois esta disfunção era novidade para as pedagogas e, além disso, parece que falta ao corpo docente interesse em promover aprendizagem. O que vale hoje é passar de ano, o que contraria a nossa opinião a qual o que importa é aprender e entender. 


Hoje em dia, ainda tem muita dificuldade em interpretar textos, parágrafos, questões. Temos que traduzir frase por frase até entrar na cabeça dele, mas mesmo assim se no dia seguinte perguntarmos o que ele aprendeu sobre o assunto, virá com aquela cara de dúvida que citei lá em cima. 


Mesmo com essas dificuldades no seu dia a dia, João vai sozinho a consulta semanal com a fono, ao ortodontista, aos cursos de informática e inglês e ainda executa pequenos serviços como correio e compras de emergência.  Muito embora o processo seja lento quanto aos resultados de tudo que aprende, motivado pela já citada pela curta capacidade de absorver o novo, seguimos as orientações no sentido de estimula-lo a todo instante.


Estou abordando o tema para que sirva de ajuda em outros casos semelhantes ao meu. Portanto se você identificar alguma semelhança com alguma criança a sua volta, ou mesmo nos casos já diagnosticado DPAC, fale sempre olhando nos olhos e de forma bem clara. Faça seu pequeno repetir o que lhe foi passado, se usado um jogo de palavras não se esqueça de dizer que é brincadeira, as palavras de duplo sentido e expressões cotidianas, caem como outro idioma na sua cabeça. Paciência é a sua ordem, aliás, tenha sempre. Como são literais demais, não sabem mentir, inventar e usam da sinceridade o tempo todo. Dão as respostas mais francas e nem sempre esperadas.



É difícil sim, mas assumi ser mãe, educadora, babá, tradutora, professora e tantas e outras designações que forem me dadas para ajuda-lo. Não posso desistir de querer ver meu filho bem encaminhado. Tenho preocupações normais que rondam o meu diploma de mãe. Mas saber que ele pode andar sozinho, fazer suas escolhas, seguir seus instintos, não tem preço que pague meus esforços de hoje e sempre.



*NR. Como viver num mundo sem entender o que os outros falam.



Fontes de pesquisa:

sábado, 16 de agosto de 2014

Geração “nem nem”. Nem tanto assim.



É assustador saber que 1 a cada 5 jovens , não estuda e nem trabalha, mas, ainda não sei o que é mais assustador: se é a falta de conteúdo desses jovens ou a falta do que fazer. Eles não viraram estatística sozinhos. Foram forjados por métodos educacionais de pais que, preocupados em dar tudo que é de bom e melhor aos filhos, pouparam alguns detalhes. Esquecerem certos valores. Esses mesmos pais que, quando crianças eram castigados ou simplesmente repreendidos pelos seus genitores quando batiam a porta do quarto, ou quando não chegavam a tempo do jantar em família, juravam que nunca iriam repetir tal ato com seus filhos. 

É certo, os tempos são outros. Hoje em dia mãe e pai trabalham fora para ter uma condição de vida melhor. Tem muitas mães virando pais, tem muitos filhos sendo criados por avós. Tem muitos filhos nem sendo criados... Crianças abrindo mão de estudo por não entender sua necessidade.  Meninas virando mães ao primeiro passo da puberdade, meninos fazendo filhos sem saber na verdade como se faz.    

Os jovens de hoje tudo têm, e se não tem, são automaticamente excluídos do seu meio social. É tão comum você se deparar com meninos, falando sobre jogos de X-Box (em média cada jogo se não pegar promoção sai em torno de R$ 200,00, sem falar no aparelho que sai por volta de R$ 1.600,00 dependendo do modelo), trocando mensagens pelo “whatsapp” ou falando de seus tablets.

Essa geração intitulada “nem nem” também ganha força e resposta positiva através do “Conselho Tutelar”, onde adolescente pode roubar, matar e é tratado como “menor”. Pode escolher seu representante num governo, mas não pode ser responsável pelos seus atos. Principalmente os criminais.

Fora esses fatos, existe a famosa “Lei da Palmada”. Os corretivos que, antigamente faziam efeito e tinham força na família e comunidade, são proibidos. Hoje mal se encosta em um menor e já bate a sua porta o Conselho Tutelar repreendendo pai ou o responsável.  

Outro aspecto desfavorável a essa geração: a escola. Nos dias de hoje, é raro um jovem sair do ensino fundamental com menos de 15 anos. Raro, esse mesmo jovem, saber fórmulas matemáticas, regras de acentuação e pontuação. Língua estrangeira? Só se fizer curso em escolas particulares de idiomas. Leitura em grupo? Produção textual? Técnicas de redação? Nem sabem o que é isso. É gritante o numero de professores afastados por motivos particulares, gritante o numero de alunos que passam sem saber coisa alguma, gritante o desrespeito de alunos com os professores, gritante o descaso do ensino. Um círculo vicioso, onde os jovens mal formados de ontem, hoje deformam seus filhos.

Em suma: sem estudo, sem emprego, sem perspectiva do amanhã, sem futuro, sem responsabilidade, sem educação, sem limites. Surge a geração “nem nem” ; nem estuda, nem trabalha, nem sonha, nem idealiza, nem projeta um futuro. Nem tem como.