sábado, 26 de julho de 2014

O carteiro, as cartas e nós.



Quem nunca teve a visita esperada de um carteiro? A inesperada também?

Eu tive um carteiro na vida. Um carteiro que foi responsável por todas as cartas mais importantes que já tive. Seu Rocha. Aquele sotaque dizia que era do nordeste. Seus cabelos brancos entregavam que logo seria substituído. A simpatia era única e pitoresca e bem presente toda vez que entregava animado as minhas cartas. Ele apontava esquina da Rua Alexandrino da Silveira Bueno, do velho Cambuci, balançando as cartas em mãos e quando me via na janela abria um sorriso que logo me dizia que tinha carta pra mim.  Aquele sinal de Seu Rocha fazia com que eu “voasse” do 3º andar pro térreo em frações de segundos. Ele tinha em suas mãos algo que era meu, só meu. Ele tinha um tesouro que eu guardo há 7 chaves pelo menos há 30 anos... 

Abria com cuidado pra não perder nenhuma palavra que pudesse escapulir ou tentar fugir do conteúdo do envelope. Não eram notícias sobre o tempo, correspondências bancárias ou malas diretas de propagandas que chegavam. Seu Rocha me trazia cartas. 

Mas não eram cartas de amor e nem simplesmente cartas. Eram as cartas. As tão esperadas cartas.  Esperadas por mim claro e também por uma legião de “ amigas-colegas” que adoravam lê-las. Eu ficava toda feliz, pois só eu recebia as cartas. Embora dividisse a leitura e a alegria com as meninas, não dava pra dividir a amizade ali contida.
Lembro que seu Rocha entrou na minha vida em meados de 1988. Tinha 17 anos. Ela já era Seu Rocha. Seu Rocha viu uma amizade nascer. Viu minha amizade por correspondência tomar cor, ter cheiro, ter conteúdo, por uns 10, 15 anos, creio eu. 

O destino das cartas era o meu, claro. São Paulo. Quem as remetia era ele. Vitor Hugo. Um amigo, colega de colégio, de perua escolar nos anos 70, em plena Porto Alegre. Íamos de perua para mesma escola. Nada mais que isso. Eu tinha 9 anos, ele também até 20 de outubro. Depois desse dia se tornava “mais velho” do que eu. Era assim que ele dizia. 

Em dezembro de 1983 quando Queen lançava um de seus maiores sucessos “Radio Ga Ga”, esbarramos pela primeira vez depois da minha mudança pra São Paulo em 1980. Mas em dezembro de 1986 foi que realmente conversamos pela primeira vez, nos conhecemos. Tínhamos  amigas em comum. Tinha uma praça no meio, um teatro ao vivo acontecendo naquela noite de verão e a amiga em comum me apresentando a todos os seus amigos como a “amiga de São Paulo que veio passar as férias aqui”. Eu me sentia um bicho. Era tímida que só. Isso fazia minhas bochechas pegarem fogo toda vez que  me apresentavam daquela forma. E assim cheguei ao Vitor, “lembra dele? Irmã da Daiane, que mora ali na frente do mercado, na rua da praça, aquela ali, a Candido José de Godoy (claro que ela não sabia nem o nome certo e número da casa e detalhe: quase todas as ruas principais davam na praça...)”  e seguia a via sacra da Laudi e Aline me apresentando aos amigos de “infância” do Parque dos Maias.

Gravei na mente aquele momento único. Do reencontro e do lançamento. Toda vez que ouço a canção, me vem à lembrança daquela maravilhosa época e do encontro inusitado.

De malas prontas e endereços anotados, me despedia de Porto Alegre diferente. Aquelas férias mudaram minha vida pra sempre. Ali começava uma amizade que garantiu o emprego de seu Rocha pelos 10 anos seguintes, pelo menos. E as mais doces recordações que carrego em minha vida.

O remetente das cartas.

Vitor Hugo. 

Vitor Hugo Fernandes Dandi.

Carinhosamente chamado por mim de Vitinho. 

Chinelos arrastando pelo chão. Cabelos ondulados e cumpridos, (tinha cabelos naquela época!) bochechas gordas, óculos na face, mas um dom inesperado para um garoto de sua idade. A escrita. Respondia as minhas cartas com tamanha vida que eu chegava a ouvir seu espirro quando ele descrevia em cartas seu resfriado. Sentia o frio que ele descrevia nas linhas a lápis e as pressas a caminho da faculdade. Sentia o cheiro do mate que tomava ao fim da tarde na companhia de seu Salvador, seu pai. 

Vitor começou no mundo das cartas aos 17 anos e eu aos 16. 

Foram 15 anos de correspondências trocadas, somadas em torno de 150 cartas. Claro que bem mais minhas do que dele. Mas pra um guri 50 cartas foi um numero inigualável, imbatível, digamos que um recorde insuperável.
Entre uma carta e outra, livros de presente, a maioria compradas em sebo. Eu levei a sério o conselho dado por Helene Hanff no seu livro “84 Charing Cross Road Nunca te vi, sempre te amei” cartões postais, cartões de aniversário, Natal, telegramas surpresas, trufas de chocolates (por sedex é claro!) tudo aquilo que o correio oferecia, trocávamos. O telefone entrou no meio tempos depois, acho que uns 2 anos.  Era caro, usava pela empresa, vinha descontado em folha os poucos minutos de alegria que dividíamos. Em casa podíamos nos falar nos sábados a noite, pois o interurbano era mais barato e depois das 21 hs. Sem falar que minha mãe ficava sempre em volta garantindo que não estávamos planejando uma fuga...   
Dividíamos letras. E juntas faziam um sucesso tremendo. Mais que cartas líamos. Entre os traçados, eu lia e mandava meus livros prediletos. Papilon  e Banco  de Henri Charrière (o livro que foi considerado seu segmento) um dos melhores livro q eu já li, inclusive estou relendo, Nunca te Vi eSempre te Amei,  Feliz Ano velho de Marcelo Rubens Paiva O  menino do óculos de aro de metal, o alquimista,  Diário de Dany e Diário de Ana Maria de Michel Quoist (comprei recentemente para meu filho e todo adolescente deveria ler) entre outros livros e o meu diário...que segundo sua avó Dona Marfisa “ andava  por todos os cantos, com o livro embaixo do braço, feito Bíblia” era assim que ela me descrevia quando eu ligava perguntado se Vitor estava em casa....
Um trecho de uma das cartas de Vitor:

As cartas não foram substituídas por emails não. Elas não  foram substituídas. Não tinha nada que as substituíssem. Nada mesmo. Nem por outras cartas. Elas tiveram seu tempo. 
 
Nos dias de hoje, com essa tal de inclusão digital, raro a pessoa que não tenha um celular, uma conta de email ou facebook. Se Saddam Russein e Osama Bin Laden fossem  vivos, certamente teriam facebook.

Mas mesmo com tanta facilidade ofertada nas pontas dos dedos, não usamos nada que venha substituir a façanha das escritas.

Tenho cartas que são só minhas. Tenho marcas. Mas não tenho cicatrizes. Tenho história a contar. Tenho música, tenho lembranças vivas dentro de mim e escritas. Tenho o doce sabor da uma amizade infantil que preencheu meus dias por muito tempo. E sei que não são só minhas, as lembranças. Mas as cartas são...


Queen - Radio Ga Ga 

https://www.youtube.com/watch?v=azdwsXLmrHE 


quinta-feira, 24 de julho de 2014

Sweet Memories - Anos 90.



3º etapa- SP- Anos 90.

No fim dos anos 80 e já com os filhos tornando-se adultos, meus pais rebolavam para manter um padrão familiar confortável. Não faltava nada em casa. Tínhamos Freezer, máquina de lavar louça (meu irmão foi salvo pelo Congo máquina... rsrs, sempre sobrava pra ele à louça), máquina de lava roupa, forno microondas. 3x1(aqueles que eram toca discos + toca-fitas + AM-Fm). O nosso era da Sharp. Lembro com detalhes do Grilo Feliz o desenho propaganda da Sharp. Eu chegava a reproduzir na capa de meus cadernos. O famoso 3x1 fora substituído pelo aparelho de CD e antes mesmo deste fazer parte da nossa casa, comecei a colecionar os CDs de filmes que eu via nos cinemas.
  




Não foi difícil para eu fazer uma coletânea maravilhosa dos filmes que eu considerava um clássico na época: Perfume de Mulher, Cinema Paradiso, Era uma Vez na América. Fora outros e mais outros e outros.






Os anos 90 também foram marcados pelo surgimento da TV a cabo, fazendo com que eu ficasse um tanto dependente de cada episódio novo de Seinfeld, Friends e Baywatch.









Gosto muito de me lembrar da época em que eu enchia os bolsos do meu pai com bilhetinhos para que ele não se esquecesse da minha caloi. Onde eu sonhava em ter o batom da Farrah ou até mesmo em me encontrar numa noite qualquer com Vincent e ser salva por ele... Mas prefiro os dias de hoje. Se eu não tivesse visto tudo que eu vi, vivido todas essas emoções, sentido todos esses gostos, sonhado com tantos beijos cinematográficos, certamente não teria memória para aqui descrever. E nem teria motivo para cobrar, de meu filho os valores da vida. O passado pertence a todos nós, cada um a sua forma, com suas doces lembranças. Mas o que é o presente que se faz futuro amanhã senão a semente que plantamos no ontem e colhemos no hoje? Somos feitos de lembranças sim, lembranças passadas, mas com uma alma carregada na esperança de melhores dias, dias que estão por vir. E que venham então! 

Sweet Memories - Anos 80.



2º etapa- SP- Anos 80.

Em 1981 deixei junto no sul o sonho do vestido de prenda, as férias na fronteira, a bergamota no pé, o figo que queimava a boca, a banguela de São Sebastião do Caí e fui cair em SP, meu estado natal. Conheci outros costumes, provei outros gostos, outras brincadeiras. 

Foi então que senti o que era paixão. Meu peito batia, não, ele pulava toda vez que Macgiver entrava em cena. Ah torcia tanto para que ele se salvasse no final e por sorte ele sempre tinha tudo ali pra fazer uma bomba. Poxa!

Ficava dividida entre ele e Bruce Willis em seu papel de detetive na série “A gata e o Rato”, outro ícone dos anos 80. 








Mas quem levou a melhor no quesito paixonite juvenil foi Vincent (Ron Perlman) do seriado “A Bela e a Fera”. Não resta dúvida que a criatura nesse caso era sem dúvida alguma melhor que seu criador. (no caso o ator)

Já com sintomas de adolescente, numa cidade feita de concreto puro que é São Paulo, largamos de lado as brincadeiras de criança e fomos conhecer os famosos “Shoppings” que eram novidades lançados nas novelas e em seriados também. Barrados no Baile era prova real disso. Ah, elas ditavam sim as modas! E com o sentido de consumistas, descobrimos que para ter o LP da novela “Ti, Ti, Ti” tínhamos que batalhar. Se quiséssemos Os bailinhos da época que podíamos fazer em casa, eram ao som de: Blitz, Metrô, RPM, Klayton e Kledir, The Manhattans, Peter Cetera, Spandau ballet, Duran Duran e muitos outros por aí afora.







Passei boa parte dos meus dias de vida em São Paulo. Conhecendo culturas diferentes, consumindo culturas diferentes. Adquirindo hábitos diferentes. Na minha turma de escola tinha coreanos, chineses, árabes, italianos, portugueses. Todos com seus sotaques presentes, hábitos, jeitos. E mesmo entre tantas nações, falávamos a mesma língua quando se citava criação, educação, família: falávamos em respeito. Bastava o professor entrar na classe que a turma toda sentava. Cantávamos o hino Nacional e da cidade todos os dias, enfileirados e com a mão no ombro do colega da frente. Fazíamos festa do folclore valendo nota em Português e História pelas pesquisas. Dessa forma sabíamos exatamente o que era Bumba meu Boi, ou quem era Curupira, Saci Pererê e outros mitos e lendas. Nunca vi meu filho pesquisar a mando das escolas que ele já passou sobre isso e olha que ele sempre passa por média...

Fazíamos trabalho em grupo na casa do colega ou na escola consultando a biblioteca real. Essas forradas de livros, com cheiro de livros. Tínhamos que ter carteirinha da biblioteca municipal e valia mais pontos se fôssemos até uma para fazer o trabalho. Minha mãe e as outras mães não nos rastreavam. Ao contrário: confiavam em nossa palavra. Sabíamos onde estávamos com quem e fazendo o que. Hoje, os filhos não se reúnem mais, não existem trabalhos em grupos, idas a bibliotecas. Hoje existe internet. 
As escolas aceitam trabalhos copiados da internet desde que se de os devidos créditos da consulta (um absurdo isso). Meu filho chegou até tirar um ponto a menos num trabalho escolar simplesmente porque eu quis que ele redigisse a mão... a professora queria digitado...que diferença fazia? O que vale não era a pesquisa? O trabalho não era sobre informática... a matéria não era de informática.

Sweet Memories - Anos 70.



Embora minha época tenha sido dividida em três etapas, acho que me saí bem dentro do esperado pela minha família.

1º etapa: RS - Anos 70.

No RS éramos criados “solto das patas” como dizem por lá. Principalmente no interior do sul. Crescíamos entre cidades fronteiriças, brincando na rua, tomando banho em rio, chupando bergamota no pé, comendo manga com casca, queimando a boca com figo. Mas fora isso, brincávamos com telefone sem fio (feito com potes de iogurte e um barbante ligando-os) o vai-e-vem, aquele amarelo laranja mesmo, com alça verde, as 5 marias, peteca. Dentro de casa podíamos chamar uma coleguinha por vez para brincar de vareta, dominó, a palavra é e até mesmo um quebra-cabeça.  Depois passamos para fase egoísta, onde um apenas brinca um por vez: aquaplay, cubo mágico e elo maluco.  No fim do ano, aquele que passava de ano e já atingia os 8 anos podia então sonhar em encher a casa e os bolsos do pai com bilhetinhos apelativos: “Pai, não esqueça da minha Caloi” e ele nunca esqueceu...de nenhum dos filhos.



A vida era dividida também entre sonhos e realidade. Entre um livro e outro, uma nota 9, lição de casa feito todo dia ao retorno da escola, entrega de boletins somente com a presença dos pais, víamos na única TV que a casa tinha O sítio do pica-pau amarelo. Lá ia eu embarcar nos contos de Monteiro Lobato naquele trem que passava todos os dias, as 5 da tarde.  Quem não torcia pelo herói japonês Ultraseven derrotar aqueles monstros que apareciam para acabar com tudo? Ou quem nunca sonhou em ir ao Elo Perdido e fazer companhia para Tchaca? Ou simplesmente balançar o cabelo e mexer o nariz como Sabrina a Feiticeira e Jeannie é o Gênio?




Quando nos foi permitido, assistíamos ensandecidos, uma das melhores senão a melhor minissérie sobre beleza e vaidade feminina: As Panteras! Ah, foi ali que descobri o poder da palavra “não!”, pois eu queria muito ter um batom da Farrah Fawcett, por anos seguintes, elas ditaram a moda entre cabelos, maquiagens e foram sinônimos da independência feminina. Mas meu sonho não se resumia em ser uma das “panteras” não! Eu queria mais, queria voar direto para Ilha da Fantasia e desvendar antes mesmo de Ricardo Montalban e Tatu os crimes que rondavam aquela ilha paradisíaca.

Era proibido ver Dancin Days, mas eu cheguei a usar sim aquelas meias que brilhavam na tela da TV.

Nessa mesma época, os jingles comerciais incendiavam a TV e entravam na mente da gente com maior facilidade. Não tinha como não sair cantarolando “Apanho um sabonete pego uma canção e vou cantando sorridente. Duchas corona um banho de alegria num mundo de água quente...” 

Ou

 “Roda, roda, roda baleiro, atenção! Quando o baleiro parar ponha a mão! Pegue a bala mais gostosa do planeta, não deixe que a sorte se intrometa...https://www.youtube.com/watch?v=IptSDxS248c

Eu quase quebrava o orçamento familiar querendo que minha mãe comprasse o café seleto. “... na hora de tomar café, é o café seleto, que a mamãe prepara com todo o carinho...” e eu nem tomava café puro....