Quem nunca teve a visita esperada de um carteiro? A
inesperada também?
Eu tive um carteiro na vida. Um carteiro que foi responsável
por todas as cartas mais importantes que já tive. Seu Rocha. Aquele sotaque
dizia que era do nordeste. Seus cabelos brancos entregavam que logo seria
substituído. A simpatia era única e pitoresca e bem presente toda vez que
entregava animado as minhas cartas. Ele apontava esquina da Rua Alexandrino da
Silveira Bueno, do velho Cambuci, balançando as cartas em mãos e quando me via
na janela abria um sorriso que logo me dizia que tinha carta pra mim. Aquele sinal de Seu Rocha fazia com que eu
“voasse” do 3º andar pro térreo em frações de segundos. Ele tinha em suas mãos
algo que era meu, só meu. Ele tinha um tesouro que eu guardo há 7 chaves pelo
menos há 30 anos...
Abria com cuidado pra
não perder nenhuma palavra que pudesse escapulir ou tentar fugir do conteúdo do
envelope. Não eram notícias sobre o tempo, correspondências bancárias ou malas
diretas de propagandas que chegavam. Seu Rocha me trazia cartas.
Mas não eram cartas de amor e nem simplesmente cartas. Eram as cartas. As tão esperadas cartas. Esperadas por mim claro e também por uma legião de “ amigas-colegas” que adoravam lê-las. Eu ficava toda feliz, pois só eu recebia as cartas. Embora dividisse a leitura e a alegria com as meninas, não dava pra dividir a amizade ali contida.
Mas não eram cartas de amor e nem simplesmente cartas. Eram as cartas. As tão esperadas cartas. Esperadas por mim claro e também por uma legião de “ amigas-colegas” que adoravam lê-las. Eu ficava toda feliz, pois só eu recebia as cartas. Embora dividisse a leitura e a alegria com as meninas, não dava pra dividir a amizade ali contida.
Lembro que seu Rocha entrou na minha vida em meados de 1988.
Tinha 17 anos. Ela já era Seu Rocha. Seu Rocha viu uma amizade nascer. Viu minha
amizade por correspondência tomar cor, ter cheiro, ter conteúdo, por uns 10, 15
anos, creio eu.
O destino das cartas era o meu, claro. São Paulo. Quem as
remetia era ele. Vitor Hugo. Um amigo, colega de colégio, de perua escolar nos
anos 70, em plena Porto Alegre. Íamos de perua para mesma escola. Nada mais que
isso. Eu tinha 9 anos, ele também até 20 de outubro. Depois desse dia se
tornava “mais velho” do que eu. Era assim que ele dizia.
Em dezembro de 1983 quando Queen lançava um de seus maiores
sucessos “Radio Ga Ga”, esbarramos pela primeira vez depois da minha mudança
pra São Paulo em 1980. Mas em dezembro de 1986 foi que realmente conversamos
pela primeira vez, nos conhecemos. Tínhamos
amigas em comum. Tinha uma praça no meio, um teatro ao vivo acontecendo
naquela noite de verão e a amiga em comum me apresentando a todos os seus
amigos como a “amiga de São Paulo que veio passar as férias aqui”. Eu me sentia
um bicho. Era tímida que só. Isso fazia minhas bochechas pegarem fogo toda vez
que me apresentavam daquela forma. E assim cheguei ao Vitor, “lembra dele?
Irmã da Daiane, que mora ali na frente do mercado, na rua da praça, aquela ali,
a Candido José de Godoy (claro que ela não sabia nem o nome certo e número da
casa e detalhe: quase todas as ruas principais davam na praça...)” e seguia a via sacra da Laudi e Aline me
apresentando aos amigos de “infância” do Parque dos Maias.
Gravei na mente aquele
momento único. Do reencontro e do lançamento. Toda vez que ouço a canção, me
vem à lembrança daquela maravilhosa época e do encontro inusitado.
De malas prontas e endereços anotados, me despedia de Porto
Alegre diferente. Aquelas férias mudaram
minha vida pra sempre. Ali começava uma amizade que garantiu o emprego de seu
Rocha pelos 10 anos seguintes, pelo menos. E as mais doces recordações que
carrego em minha vida.
O remetente das cartas.
Vitor Hugo.
Vitor Hugo Fernandes Dandi.
Carinhosamente chamado por mim de Vitinho.
Chinelos arrastando pelo chão. Cabelos ondulados e cumpridos,
(tinha cabelos naquela época!) bochechas gordas, óculos na face, mas um dom
inesperado para um garoto de sua idade. A escrita. Respondia as minhas cartas
com tamanha vida que eu chegava a ouvir seu espirro quando ele descrevia em
cartas seu resfriado. Sentia o frio que ele descrevia nas linhas a lápis e as
pressas a caminho da faculdade. Sentia o cheiro do mate que tomava ao fim da
tarde na companhia de seu Salvador, seu pai.
Vitor começou no mundo das cartas aos 17 anos e eu aos 16.
Foram 15 anos de correspondências trocadas, somadas em torno
de 150 cartas. Claro que bem mais minhas do que dele. Mas pra um guri 50 cartas
foi um numero inigualável, imbatível, digamos que um recorde insuperável.
Entre uma carta e outra, livros de
presente, a maioria compradas em sebo. Eu levei a sério o conselho dado por
Helene Hanff no seu livro “84 Charing
Cross Road Nunca te vi, sempre te amei” cartões postais, cartões de
aniversário, Natal, telegramas surpresas, trufas de chocolates (por sedex é
claro!) tudo aquilo que o correio oferecia, trocávamos. O telefone entrou no
meio tempos depois, acho que uns 2 anos.
Era caro, usava pela empresa, vinha descontado em folha os poucos minutos
de alegria que dividíamos. Em casa podíamos nos falar nos sábados a noite, pois
o interurbano era mais barato e depois das 21 hs. Sem falar que minha mãe
ficava sempre em volta garantindo que não estávamos planejando uma fuga...
Dividíamos letras. E juntas faziam um
sucesso tremendo. Mais que cartas líamos. Entre os traçados, eu lia e mandava
meus livros prediletos. Papilon e
Banco de Henri Charrière (o livro
que foi considerado seu segmento) um dos melhores livro q eu já li, inclusive
estou relendo, Nunca te Vi eSempre te
Amei, Feliz
Ano velho de Marcelo Rubens Paiva O menino do óculos de aro de metal, o alquimista, Diário
de Dany e Diário de Ana Maria de
Michel Quoist (comprei recentemente para meu filho e todo adolescente deveria
ler) entre outros livros e o meu diário...que segundo sua avó Dona Marfisa “
andava por todos os cantos, com o livro
embaixo do braço, feito Bíblia” era assim que ela me descrevia quando eu ligava
perguntado se Vitor estava em casa....
Um trecho de uma das cartas de Vitor:
As cartas não foram substituídas por emails não. Elas não foram
substituídas. Não tinha nada que as substituíssem. Nada mesmo. Nem por outras
cartas. Elas tiveram seu tempo.
Nos dias de hoje, com essa tal de inclusão digital, raro a
pessoa que não tenha um celular, uma conta de email ou facebook. Se Saddam
Russein e Osama Bin Laden fossem vivos,
certamente teriam facebook.
Mas mesmo com tanta facilidade ofertada nas pontas dos dedos,
não usamos nada que venha substituir a façanha das escritas.
Tenho cartas que são só minhas. Tenho marcas. Mas não tenho
cicatrizes. Tenho história a contar. Tenho música, tenho lembranças vivas
dentro de mim e escritas. Tenho o doce sabor da uma amizade infantil que
preencheu meus dias por muito tempo. E sei que não são só minhas, as
lembranças. Mas as cartas são...
Queen - Radio Ga Ga
https://www.youtube.com/watch?v=azdwsXLmrHE


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