Falar de música não é complicado. É delicado.
Envolve sentimentos, situações, gostos, cheiros, saudade... Enfim, envolve as
lembranças que tatuam nossa mente em noites de insônia e também as calorosas
noites de amor...
A música sempre fez parte da minha vida. E faz. Não
crio temas para a vida. A música se encaixa em cada época, ação, situação. Sou
péssima cantora de chuveiro e nunca me arrisquei em karaokê. Mas tudo
transformo em música. Sempre tenho algo ligado em casa. Não sei fazer nada se
não tiver música de fundo.
Falemos de música. De todos os estilos que
influenciaram a minha vida. Relaciono aqui as canções que foram feitas pra mim.
Cada uma a sua época. Mas vamos partir do princípio. Onde tudo começou.
Momento Gauchesco
Quando trocamos os pampas por São Paulo, eu então
com 10 anos de idade saí do aconchego familiar onde nos reuníamos todo fim de
semana aos montes na casa do Tio Paulo e tia Sônia com primos, tios, avós,
vizinhos, cachorro e o churrasco em brasa pegando a todo vapor. Juntos as malas
e móveis, levamos uma vasta bagagem musical gauchesca. Alguns LPs e fitas
cassetes feitas pelo Tio Mairnard (irmão de meu pai) e outras pelo Tio Paulo
(irmão de minha mãe, o churrasqueiro de plantão, até hoje...)
A saudade do sul foi acalentada pelas músicas que
escutávamos reunidos nós os 5 (pai, mãe, minha irmã mas velha e meu irmão mais
novo e eu, claro) sobreviventes na selva de pedra, São Paulo. Uma família que
se afastara de suas tradições, familiares, costumes, em busca de dias melhores.
Uma família que se unira através da música.
Hoje em dia, quando falo das canções que fizeram
parte dos meus dias, não posso deixar de falar das canções gaúchas que tanto
marcaram a minha família.
Linguagem única e muito peculiar. Mas como tudo na
vida da gente é peculiar, vou tentar ser resumida pra não ser cansativa...
Uma das canções que considero principal é o Canto
Alegretense. A família de minha mãe toda é de Alegrete. Seus pais que já
fazem morada no céu, seu irmão Tio Paulo, o famoso churrasqueiro e meus outros
tios que tive a felicidade de reencontrar através do facebook. Tia Alicinha,
Tio Flávio (faleceu recentemente) Tio Nelson, Tio Paulinho (também falecido),
Tio Danilo e Tia Lucia. Sem falar em minha mãe e minha irmã mais velha, Symonne.
Essa canção é
considerada o Hino do Alegretense.
Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduy
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduy
Neto Fagundes - Canto Alegretense
Outra canção que se tornou hino mas não só para
minha família, como para muitas, é a de Teixeirinha “Querência Amada”. O
tradicionalismo no sul é muito forte e evidente até hoje. Os CTGs (Centro de
Tradições Gaúchas) ainda promovem a preservação da cultura gaúcha através das
danças, hábitos, costumes e músicas.
Osvaldir e Carlos Magrão – Querência Amada
Momento
Instrumental (Radio Skalla)
Meu pai era “visita” em casa. Assim minha mãe
explicara o porquê dos silêncios quando ele estava presente e o porquê de sua
ausência quando não estava. Éramos (e somos) 3 filhos. E meu pai mal nos viu
crescer. Ficava sabendo que um ficara para recuperação, que o outro tivera
febre, mas no final estava tudo bem.
Quando meu pai chegava a casa tarde da noite, nós os
filhos já estávamos dormindo, então eu sabia que era a única oportunidade que
eu tinha de “curtir” aquele momento em família. Eu ficava acordada fingindo
dormir a espera dele. Ele tinha uma rotina que seguia pontualmente quando
chegava a casa: pegava seu radinho de pilha, sintonizava na rádio Skalla FM e
ia ao banheiro fazer sua barba. Vinha aquela enxurrada de música instrumental
que eu simplesmente adorava! Foi naquele momento tão esperado por mim que eu
descobri Jonh Barry tocando Born
Free, 101 Cordas com a interpretação sensível de Autumn Leaves, Glen Miller e a
bela Moonlight Serenade e outras
orquestras como Paul Mauriat, Franck Pourcel, Percy Faith. Ray Conniff!
Lembro que meu pai ganhara de minha mãe no Natal 7 LPs de Ray Conniff, e
eu secretamente, dizia que era pra mim o presente... Adorava tanto quanto ele.
No final da barba feita, do banho tomado, meu pai vinha em nosso quarto,
verificava se estávamos tapados e beijava nossa face. Um homem que foi criado
dentro de um quartel militar, cheios de regras e cobranças particulares, aquele
era o ápice de carinho que nos era permitido ter de nosso pai. Pra mim, era
pura magia tudo aquilo: as músicas, o cobrir e o beijo. E eu ali, quieta,
fingindo dormir pra não perder um momento qualquer. O rádio tocava a madrugada
toda. E eu dormia tranquila, pois sabia que meu pai estava em casa.
Jonh Barry - Born Free
101
Cordas - Autum Leaves
Momento
MPB
Minha mãe ficou com a parte da criação dos filhos e das tarefas do lar.
Incluía nas tarefas nos tornar cidadãos de bem, filhos prendados e
independentes em todos os sentidos. Era árdua sua tarefa, pois tínhamos (e
temos!) personalidades bem diferentes.
Mesmo com tantas dificuldades, do
macarrão com salsicha em pleno domingo, do refrigerante de 1 litro ser dividido
em 5 copos e ser bebida apenas de domingo, do pão com ovo virar festa ao invés
de sopa de legumes, minha mãe se saiu bem. Não tínhamos condição de ter
empregada em casa então, dividíamos as tarefas e pra coisa ficar mais saborosa,
e, minha mãe ligava a todo vapor um “3x1” da Sharp. Era a última geração aquele
3 em 1! Rádio, vitrola e fita cassete. Nossa! Nós delirávamos com o aparelho e
no meio as faxinas semanais, fomos apresentados a coleção de minha mãe do
“Círculo do Livro” com as vozes nacionais de Chico Buarque, Elis Regina,
Emilio Santiago, Maria Bethânia, Caetano Veloso, Nana Caymmi, Belchior,
Gilberto Gil... Aos 12 anos minhas colegas deliravam pelos Menudos e
eu pedia de amigo secreto na escola um LP de Ney Matrogosso... Nem
preciso dizer que eu era a queridinha das tias, mães das tias. Acho que minha
mãe não tem noção do bem que nos fez ao nos botar pra trabalhar ao som do seu
bom gosto musical. Sou grata a ela. Muito mesmo.
Geraldo Vandré – Pra
não Dizer que Não Falei das Flores
Elis
Regina & Adoniran Barbosa - Tiro ao Álvaro
Momento
Europeu
Com vassouras, espanador e rodo a mão, foi a forma
que conheci Gilbert Becoud com sua sensível Et Mantenaut, I Santo Califórnia com Tornero, Edith Piaf e La
Vie em Rose. Nasci em janeiro, fazendo assim os discos serem duplicados
para mim: Natal e aniversário. A dúvida
era cruel entre Anos Dourados e Ritorna 2! Esse foi um dos momentos mais marcantes na minha vida. Toda vez que ouço uma de minhas canções prediletas, sou tomada por uma ótima sensação de bem estar, ternura e claro, saudade.
I
Santo Califórnia - Torneró
Gilbert Bécaud - Et
maintenant




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