DPAC- Vivendo na Torre de Babel*
As vésperas de meu
filho completar 14 anos ele foi diagnosticado com DPAC.
O que todos achavam que
era excesso de zelo, mimo da minha parte e desatenção e preguiça da parte dele,
ganhou esse nome aí: DPAC.
Mas vamos por partes. O
que é isso aí? DPAC significa Desordem no Processamento Auditivo Central. O
portador desta disfunção ouve perfeitamente, mas seu cérebro não processa o que
ouve. Fica tudo bagunçado na sua mente. Tudo confuso, sem começo, meio e,
logicamente, sem fim algum.
É considerada uma
neuropatia auditiva. Uma falha no
sistema auditivo central. Ainda não se conhece a causa concreta para o
surgimento do DPAC, mas entre as mais cogitadas estão: permanência
em UTI-Neonatal por tempo superior a 48 horas; fatores genéticos; otites nos
três primeiros meses de vida; experiências auditivas insuficientes durante a
primeira infância além de processos alérgicos, rinite, e sinusite.
João nasceu com 8 meses de gestação, teve parada respiratória, ficou 8
dias na UTI, depois mais 8 na CTI e tem uma alergia crônica tratada com
antialérgicos de uso contínuo e injeção semanal para controle da rinoconjuntivite
crônica que tem. Dentre as prováveis causas relacionadas, ele apresenta 3, o
que aliado aos sintomas e seu histórico médico, confirmam o diagnóstico.
A DPAC está no “mercado” há 15 anos,
quase a idade de João. Mãe de primeira e única
viagem, eu sentia que algo estava errado com ele, mas por ser filho único, neto
único, sobrinho único, deixei por conta dos mimos, como diziam todos. Mesmo
assim, vez por outra, eu consultava alguns médicos a respeito da dificuldade
que ele apresentava. A resposta era sempre a mesma: o menino é superprotegido e
deve melhorar com o tempo.
João não entende piadas,
frases com duplo sentido e expressões cotidianas. Mas quando descobre o sentido
da piada, ele por sua vez aluga o assunto até gastar! Piadas acabam ficando sem
graça de tanto que ele as usa, mas para não desestimulá-lo a interpretar
sozinho, rimos como se fosse a primeira vez. Claro que lá pela 99º vez falamos
com todo amor e carinho que já ouvimos...
Outro aspecto sintomático
que ele apresenta: imita o que lhe parece engraçado. Vive situações que outras
pessoas viveram e percebe que chamou atenção. Exemplo: se um colega tropeça e desperta
gargalhadas, ele vai tropeçar (de propósito) e rir mais do que a plateia. Além
disso, vai relatar várias vezes que tropeçou e todo mundo riu. Novamente
entramos com os comentários delicados para não frustrar.
Por tudo estar bagunçado em sua cabeça, João
tem uma dificuldade enorme em interpretar o que é pedido. Imaginem seguir um comando
sem ao menos entender o sentido dele.
Agora imaginem seguir vários. A confusão surge instantaneamente na vida
dele.
No começo eu achava que
ele se “fazia” desentendido, ficava com a carinha de paisagem e com um ponto gigantesco
de interrogação gravado na testa, tomando conta da sua fisionomia. Mas com o
tempo vi que essa expressão era contínua. Suas dúvidas eram as mesmas no dia
seguinte e em horas depois. Descobri que meus comandos e esclarecimentos tinham
que ser o Pai Nosso de todo o dia, isto é, todos os dias repetir as mesmas
coisas, sem tirar nem por cada informação.
Mexer na geladeira por
iniciativa própria sem ordem de terceiros (e olha que me incluo nisso) nem
pensar! Combinar roupa, querer ir ao shopping sozinho ou com seus amigos como
passeio casual, não passa pelos seus pensamentos. Tomar decisões? Não sabe
ainda o que é isso. Agora, imaginem minha preocupação, pois está indo para ensino
médio, prestes a completar 15 anos, mas com mente de 10. Não confundir com retardo mental, pois não
apresenta prejuízo intelectual.
Aceita comandos sem se
rebelar. Viaja sozinho de avião desde seus 12 anos, embora cheio de ordens e recomendações
repetidas diversas vezes antes de embarcar. De uma pureza única, não vê perigo
em nada e acha tudo de bom tamanho. Tudo é confiável, todos são confiáveis. Se
tiver pizza no lanche, ele fica muito feliz, mas se for pão com manteiga, ele
se conforma e não reclama, mantendo a mesma expressão.
Uma de suas maiores
aliada é a boa e velha rotina. Todos os dias repetir as mesmas atividades ajuda
a exercitar a mente. Ter hora pra tudo e explicações detalhadas, facilita seu
desempenho. Frases longas ou moscas voando em sua frente fazem com que ele
perca o rumo no meio do nada. Enfim, tirar da rotina, é voltar à estaca zero do
tratamento contínuo, uma vez que DPAC não em cura, sendo apenas possível ensinar
o cérebro a responder a novos estímulos.
A recuperação acontece
graças à neuroplasticidade – capacidade para se moldar a uma nova realidade. “É fundamental que o tratamento seja
interdisciplinar, com a atuação de otorrinolaringologistas, fonoaudiólogos, neuropediatras,
psicopedagogos e neuropsicólogos. A reabilitação proporciona melhora na
qualidade de vida e um cotidiano normal para os estudantes”,
evidencia Dra Rita de Cássia Cassou
Guimarães, mestre em clínica cirúrgica pela Universidade
Federal do Paraná (UFPR).
Seu rendimento escolar
é de médio a ruim. São poucas as
matérias em que consegue alcançar boa nota e mantê-la. Repetiu o segundo ano
primário, e, a alegação da professora na época, não foi por nota, mas por ser
uma criança apática, que não brincava
com as outras, não tomava iniciativa na classe, não participava de atividades
em grupo. Coincidentemente esta foi à fase em que eu e o pai dele nos separamos
o que justificou pela pediatra e familiares seu comportamento e “baixo
rendimento escolar”.
Atualmente faz acompanhamento com neurologista, clínica geral,
fonoaudióloga. Depois das férias, começará com o tratamento com psicóloga. A
escola também tem que estar informada sobre o assunto, pois seu mundo diferente
não é visto a olho nu. Na escola dele, tive dificuldade em obter ajuda, pois esta
disfunção era novidade para as pedagogas e, além disso, parece que falta ao
corpo docente interesse em promover aprendizagem. O que vale hoje é passar de
ano, o que contraria a nossa opinião a qual o que importa é aprender e
entender.
Hoje em dia, ainda tem
muita dificuldade em interpretar textos, parágrafos, questões. Temos que
traduzir frase por frase até entrar na cabeça dele, mas mesmo assim se no dia
seguinte perguntarmos o que ele aprendeu sobre o assunto, virá com aquela cara
de dúvida que citei lá em cima.
Mesmo com essas dificuldades no seu dia a dia, João vai sozinho a consulta
semanal com a fono, ao ortodontista, aos cursos de informática e inglês e ainda
executa pequenos serviços como correio e compras de emergência. Muito embora o processo seja lento quanto aos
resultados de tudo que aprende, motivado pela já citada pela curta capacidade
de absorver o novo, seguimos as orientações no sentido de estimula-lo a todo
instante.
Estou abordando o tema para que sirva de ajuda em outros casos
semelhantes ao meu. Portanto se você identificar alguma semelhança com alguma
criança a sua volta, ou mesmo nos casos já diagnosticado DPAC, fale sempre
olhando nos olhos e de forma bem clara. Faça seu pequeno repetir o que lhe foi
passado, se usado um jogo de palavras não se esqueça de dizer que é
brincadeira, as palavras de duplo sentido e expressões cotidianas, caem como
outro idioma na sua cabeça. Paciência é a sua ordem, aliás, tenha sempre. Como
são literais demais, não sabem mentir, inventar e usam da sinceridade o tempo
todo. Dão as respostas mais francas e nem sempre esperadas.
É difícil sim, mas assumi
ser mãe, educadora, babá, tradutora, professora e tantas e outras designações
que forem me dadas para ajuda-lo. Não posso desistir de querer ver meu filho
bem encaminhado. Tenho preocupações normais que rondam o meu diploma de mãe.
Mas saber que ele pode andar sozinho, fazer suas escolhas, seguir seus
instintos, não tem preço que pague meus esforços de hoje e sempre.
*NR. Como viver num
mundo sem entender o que os outros falam.
Fontes de pesquisa:

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