Saudade n é
dor. Saudade é amor. Na verdade, vários amores guardados na estante das
lembranças, cheios de pó, mas com histórias surpreendentes a quem quiser ouvir.
A saudade é o melhor exercício para a mente n atrofiar. Lembrar dos bons
momentos, nos estimula a ir atrás de mais e mais para termos e sermos histórias
aos nossos. E assim como nas histórias, nos tornarmos eternos.
Não existe
um exato pq da saudade. Mas sei q ela n é um bicho de sete cabeças e nem o
bicho papão. Quem a tem no peito, tem felicidade constante, embora nem sempre o
riso saia, mas a alma é forrada de boas lembranças q só se constrói com
saudade.
Melancolia?
Certo dia em uma conversa com uma amiga, constatamos as duas q melancolia é
triste e deveria ter outro nome. Há q se rebatizar a melancolia, pois ela
carrega consigo a saudade. Melancolia deveria ser sinônimo de alegria,
felicidade, risos. “Tá melancólico? Ah q maravilha! Isso é tão bom... hj eu to
num estado melancólico, dando bjs e abraços em todos...” Melancolia deveria ser consumida em doses diárias no lugar de anti depressivos. Sem excesso é claro, pq tudo q é demais, é demais mesmo.
Saudade tem
jeito. Jeito pra cerzir os remendos q o tempo deixou, colar cacos
q a vida quebrou, curar cicatrizes q a dor causou.
Era uma
vez...
Saudade é cheiro. Tenho comigo o cheiro da saudade.
Dona Joana, uma senhora baixinha, de pele clara, chinelos de dedos, vestido
estampado e casaquinho pro frio, quando fazia, dizia ela, com sotaque
castelhano, por onde ia deixava o rastro
de Alma de Flores. Do quarto feito pra boneca, ao banheiro onde mais parecia um
salão de festa pelo tamanho. Ao fim da
tarde a casa tinha outro cheiro: leite quente batido com nescafé e mostarda nas
gajetas uruguaias q ela nos preparava com todo o seu amor. Dona Joana Tappes, uma
avó de 16 netos, que tanto perfumou as melhores lembranças da minha infância e meu
guarda roupas (tenho alma de flores sim!) me deu em 19 anos as mais doces
referências que um neto pode carregar em vida. Herança sentida na pele.
Saudade é som. E vários. Muitos ocupam mha mente. Ouço ainda vivo na minha memória Rod Stewart
cantar Sailing toda vez que eu me pegava
pensando em voltar pro Sul. Isso na
década de 80, uma música q embalou bailinhos, embalava mha saudade do sul. “ I am
sailing, I am sailing home again across the sea...”
Não há como falar de saudade sem pensar numa música q nos acariciou a alma. Seria injusto citar 1, 2, 3...por isso faço desse blog gdes momentos de alegria da mha vida. Mesmo os mais tristes, pq hj são superados.
Saudade é doce. Numa noite fria e chuvosa de Porto
Alegre em julho de 90, um amigo me preparou
sua espetaculosa “massa” como chamam os gaúchos. Entre risos e vinho, rock e
prosa há uma confusão enorme entre sal e açúcar, fazendo do jantar simples uma diversão única
e fabulosa. Mais doce que sua própria
massa, meu doce amigo compensa o jantar cantando pra mim Led Zeppelin
Stairway to Heaven ao som de um violão.
Sabor jamais
esquecido. Um gosto q só eu senti.
Saudade é toque. Uma cama de solteiro, um cobertor
verde e quente, o frio entrando pelas frestas, tudo dividido, Xanadu tocando a
milhão no rádio, a luz do rádio iluminando aquela noite e , mais alto q a
música q se ouvia, era o som da respiração no ouvido. O toque dos dedos pelo rosto, boca, se aventurando pelo corpo
sobre a roupa, costas, cintura, tudo em silencio, em segredo. Não havia roupas
pelo chão, nem botões de blusas sendo abertos, não havia marca de batom pelo corpo, boca, mas tinha mto
respeito, mto carinho e um amor sincero e gritante no peito. O amor sim estava
descoberto, estava nu e fora feito em pensamentos. Esses jamais esquecidos e
nem divididos. Esses jamais vividos outra vez. Foi a única vez. Foi a primeira
vez.
Saudade é vida. A vida é mto engraçada, dá voltas...
hj me pego sentindo falta de SP, da garoa no meio da tarde em pleno verão, do
cheiro de borracha queimada do Cambuci, o bairro q morei por mais de 20 anos na década de 80, a
velha escola AIA (Adelina Issa Ashcar com Dona Lúcia na direção), as colegas amigas e unidas para sempre
enquanto durar a adolescência: Helô, Samy, Rosana, Maria Pia, Rebeca, bjs em
todas vocês, o calor do trânsito
sufocante e louco em plena hora do Rush em plena Av Paulista, a coxinha da coxa
com creme do Rosima, tem até site: a casa ainda existe na Brig Luis Antonio e
tem filial na Pamplona, confiram por favor... uma casa árabe q faz as melhores
esfihas de dar inveja aos seus criadores, o por do sol na praça Charles Miller,
dos tombos de patins na Aclimação e nas pedaladas no Ibirapuera. Cursinho
Objetivo de sexta feira era ministrado pelo saudoso FT (Fernando Teixeira)
mestre em Literatura, bom humor e carisma, ali na Prainha entre “ chopps e
pastel” absorvíamos tudo q vinha do mestre....saudade.
E por falar
em pastel..pastel de feira! Você pode comer pastel mundo a fora, mas o pastel
de feira de São Paulo realmente não tem igual. Garanto. Aquela casquinha crocante, o
temperinho verde na carne, o molho de cebola e tomate..hummm q água na boca me
dá. Cê nem liga se ficar um verdinho no dente, o q importa é q seu pastel está
pronto.
Rua do Oriente, 25 de Março, o q é aquilo? Mais de 2 milhões de pessoas circulando ao meio dia em plena época de Natal. O vendedor de milho, abacaxi e Yakissoba. Todos ali desviando do trânsito humano, ganhando seus trocados, pessoas deixando suas economias, mas não esquecendo nem a filha do zelador na listinha de presentes. Todos satisfeitos no centro, na “cidade” como chamam os, soteropolitanos, cariocas, gaúchos, mineiros, japoneses, chineses, árabes, judeus, americanos, europeus, mas no fundo e de coração, todos paulistas. Pq paulista “meismo” só o sanduiche de "mortandela" (assim que paulista fala!) no Mercado Público e um café pingado servido num copinho de pinga. Pão na chapa, ovo cozido, almôndega no molho, salsicha enrolada. Só não se alimenta num boteco quem n quer...
Noite. O ar de festa em pleno inverno. As danceterias
extintas mas vivas nas memórias alheias, (sei q não só as mhas) nos convidavam a relaxar, aproveitar a vida. UP
Down, Toco, Over Night e por aí a fora. Don't You Forget About Me, Shout, Harry
Houdini , sons q me vem a mente...Tão bela época como qualquer época q tatua na
memória os passinhos de dança. Fila no banheiro, chapelaria era "up" e o Martini
com cereja. Pista lotada, palco forrado de dançarinos, telão pra acompanhar os
vídeos. Fim de festa, pai na porta da danceteria e o corpo passava a semana
toda com a sensação dos embalos q iriam continuar no sábado a noite.
Imigrantes (ah...foi Maluf q fez!!! Só
para constar aqui) lotada as 6 da tarde. Não precisa ser feriado, precisa
apenas de uns pilinhas pra vc pegar o “buzão” e descer pra Santos. Em 1 hora vc
encontra a melhor praia de SP (nasci lá, sei o q falo). O bafo sentido no
calçadão, o sorvete de doce de leite da Independência, a caipirinha do
Margarida na praia, a casquinha de siri e o empadão de frango servido junto com
MPB nos barzinhos e o mar morno a noite. As ondas fazendo espuma nos pés, a
água q molha metade da saia, as horas passando e vc nem sentindo, os parceiros
de caminhada, as famílias, as bicicletas, o trânsito apertado, mas vc nem liga, é fim de semana. É praia de
paulista...
São Paulo é assunto q dure ... e
saudade dela em mim também. Nem falei do meu timão...da Duncan, do Bexiga, de
Adorinan Barbosa, Vicente Matheus...Do Clayton Baroboskin (temos histórias amigo, n caberia em uma noite conta-las)
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa
Vamos
conjugar o verbo saudade.
Eu pensei que pudesse esquecer certos
velhos costumes
Tu muito além longe daqui
Ele zomba do quanto eu chorei porque
sabe passar e eu não sei
Nós somos feitos um pro outro pode crer
Vós, que sofreis, porque amais, amai
ainda mais. Morrer de amor é viver dele.
Eles estão surdos.
Alessandra.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirSempre gentil vc... Bjs!
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